Quanto desejo e solidão cabem em três linhas?

Quanto amor e quanto ódio, em apenas 140 caracteres?

As respostas estão nas páginas de “estórias mínimas”, terceiro livro de José Rezende Jr.

Vencedor do Prêmio Jabuti 2010 de Melhor Livro de Contos,  com “Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)”, José Rezende Jr. recorre agora aos microcontos, de no máximo 140 caracteres, para falar dos escuros do coração da gente -- como anuncia a epígrafe, de Guimarães Rosa.

Em apenas três linhas, mas muitas entrelinhas, o autor não economiza nas doses de crueldade e ternura, muitas vezes temperadas com humor ácido e insólito.


Leia agora alguns microcontos de "estórias mínimas".


MONTANHA-RUSSA
O coração parou, fulminado, logo no primeiro looping. Mas continuou sorrindo, para não estragar o domingo dos filhos.


VÍCIO MALDITO!
O marido, que não fumava, saiu no meio da noite pra comprar cigarro. Voltou dez anos depois, com câncer nos dois pulmões.

ABRAÇO PARTIDO
Lava carros o dia inteiro, com o único braço. Só sente falta do membro amputado quando chega em casa, e abraça pela metade a mulher amada.
 
TEMPORAL
Quando chegou em casa, já não tinha casa.
 
O AMOR
Amaram-se como se fosse a primeira vez. E era a última.


PAIXÃO E FÉ
Eu de joelhos, rezando, ele vem, rasga, levanta meu vestido, bate na minha bunda, me pega por trás, não, ele não vem, e eu de joelhos, rezo.


O FIM DO MUNDO
Soube, por fonte, segura, que o fim estava próximo. Bebeu, fumou, cheirou, chorou, trepou, comeu, fodeu e deu. Até hoje processa o profeta.