Leia aqui dois contos do livro premiado com o Jabuti 2010

 

O amor surdo, mudo, morto

O moço gesticula feito louco. Agita os braços, abre e fecha as mãos, move os dedos, risca o ar com raiva surda e muda. De vez em quando a moça balança a cabeça, encenando um “não” de incredulidade e tristeza. A briga chama a atenção dos pedestres que esperam a travessia da pista, nem tanto pela desavença em si, mas pelo silêncio estridente em que o amor acaba.

O moço vira as costas. A moça pousa levemente a mão no ombro dele, depois aperta com força, faz com que ele a olhe nos olhos. Agora é ela quem gesticula. O olhar dele tem faíscas. As mãos dela trovejam mágoas. Brigam em silêncio, porque não conhecem outro brigar e porque foi assim, com a linguagem secreta das mãos, que teceram ao longo do tempo este amor quieto, inquieto, prestes a se perder para sempre.

A moça eleva o tom dos gestos, o moço interrompe, segurando os pulsos dela: não quer ouvir mais nada. Tendo as mãos caladas, a moça tenta falar com os olhos, mas o moço desvia o olhar. Ela abre a boca, quer que ele a escute, mas de sua garganta muda sai apenas um grunhido de desespero, que o moço não pode nem quer ouvir.

O moço volta ao ataque, agita os dedos na altura do rosto dela. A moça cobre os olhos com as mãos para não ter que ouvi-lo. Ele a agarra outra vez pelos pulsos, exige que os olhos dela escutem toda a sua raiva. A moça não quer acreditar que as mãos que ainda ontem contavam histórias de amor pelo seu corpo inteiro sejam as mesmas que agora lhe açoitam a alma.

Os pedestres adiam a travessia, assistem sem pudor à cerimônia do fim. O moço e a moça miram-se por alguns segundos, com os olhares mudos. Exausto, o moço arranca do dedo o anel que tem gravado o nome dela, ao lado da data em que o amor foi declarado eterno. Quando sai, o anel deixa no dedo dele uma marca branca e ácida. A moça cruza os braços de horror, para não receber de volta o anel que o moço lhe estende e para não ser forçada a devolver este outro, igual, que reluz em seu dedo fino, com o apelido carinhoso dele gravado na tarde de um sábado antigo.

Irritado com a recusa, o moço abre a mão e deixa o anel escorrer entre os dedos, até tocar o chão sem qualquer ruído. Com o desespero estampado em cada linha do rosto, a moça vira as costas, hesita por um ou dois segundos, e então atravessa a pista correndo. Só quando chega do outro lado é que ela se volta e grita com as mãos desgovernadas, querendo perdoar ou ser perdoada, mas desta vez é ele quem lhe dá as costas. A moça então vai embora, surda, muda, e agora cega pela cortina de sal que lhe turva os olhos. É quando o moço desaba em si. Apanha o anel no chão, tenta atravessar a pista, o sinal está aberto, ele insiste, tropeça, tenta correr de novo, os carros freiam, buzinam, os motoristas xingam enquanto ele, paralisado no meio da pista, os dentes cerrados, grita o nome dela com os olhos, com as mãos, com a alma inteira despedaçada.

Mas a moça não olha para trás. Nunca mais verá o moço que grita em silêncio, no silêncio da cidade histérica.

 

 

Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho

eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho mesmo sabendo que suas unhas te deixarão com cara de puta, eu morrendo e você com cara de puta, eu morrendo e você diante do espelho vestindo-se como quem vai a uma festa dançar a noite inteira, a saia rodada que eu gostava de ver rodando no meio do salão deixando à mostra suas pernas de ginasta e exaurindo meu fôlego de amante sedentário, eu sem fôlego de tanto tossir sangue e você com o salto alto vermelho que lhe empina a bunda, você enorme no alto das sandálias e eu ainda menor do que antes encolhido em meu leito de morte, eu morrendo e seu corpo tão cheio de vida, meu corpo já quase vazio da alma, eu pálido e quase morto e o rosa vivo dos seus mamilos durinhos, minha boca seca e o beijo úmido que adivinho se desenhando no forro da sua calcinha, sua menor calcinha, a que mal acomoda seus lábios cor de flor, lábios que eu beijava e mordiscava prendendo sua fome entre meus dentes, os poucos dentes que me restam trincando de febre e você de peito de fora ignorando o frio que congela minhas veias perfuradas, você demorando de propósito a vestir o sutiã, você vestindo o sutiã que em outros tempos eu abriria com não mais que dois dedos da mão esquerda, meus dedos entrevados e você vestindo o sutiã que faz seus peitos ainda maiores, meu peito ardendo por causa da falta de ar e você com ares de puta que vai a uma festa trepar a noite inteira, a noite inteira eu morrendo e você se encharcando de perfume caro neutralizando o suor futuro do seu corpo de dançarina e os odores de morte que já empesteiam o quarto, a sombra da morte passando pelos meus olhos e você com mão firme desenhando sombras debaixo dos olhos, você de rímel e sutiã mais radiante do que nunca e eu envelhecido pela radiação inútil contra os tumores que me devoram, sua boca que eu devorava vermelha no espelho que reflete você de saia rodada e o batom vermelho da sua boca, minha boca clamando em silêncio pelo algodão molhado sobre o pires no criado-mudo, você sedenta de vida e meus lábios ressecados, minha garganta seca e você desfilando pelo quarto com a leveza de Debbie Reynolds dançando na chuva, meu pijama encharcado de suor e urina e você limpa, saudável e linda, sua cabeleira bailando feito um açoite, meu corpo todo lanhado, minha cabeça quase sem cabelo, eu já quase sem dentes, eu quase sem tempo, a areia do meu tempo escorrendo ligeira entre os dedos e você com todo o tempo do mundo se enfeitando diante do espelho, você rodando a saia antecipando festas para as quais eu nunca mais serei convidado, você enorme na frente do espelho e no fundo do espelho eu minúsculo no leito de morte, eu em meus catéteres, até que no espelho eu vejo você só de sutiã e saia rodada flutuando de salto alto na direção da cama, até que sinto seu frescor no mau-hálito da minha boca, meus últimos suspiros e você suspirando no meu ouvido, descendo até minha virilha, colhendo meus bagos feito um cacho de uvas secas, meu membro moribundo voltando devagar à vida com o bálsamo da sua língua, lázaro ressuscitado entre os mortos, tudo o que resta da minha circulação sanguínea atendendo ao chamado urgente das suas mãos e da sua boca, eu morrendo e você chupando e empunhando meu pau com as unhas pintadas de vermelho, e somente um segundo antes da morte e do gozo árido que chega com a morte eu vejo você inteira e descubro o rímel borrado, a nascente salgada que escorre dos seus olhos vermelhos, os soluços que fazem seu corpo tremer como num orgasmo furioso, mas não é gozo, você treme de tristeza e horror, eu gozando a seco e suas lágrimas molhando meus pentelhos, eu morrendo e você a mais bela, a mais triste, a mais doce viúva do mundo.